terça-feira, 21 de outubro de 2014

Da perda.


25 dias. Faltavam 25 dias para fazeres 102 anos. Foi em Agosto, na festa da aldeia, que te vi pela última vez ainda com saúde. Sempre pensei que íamos soprar as velas outra vez. Todos os anos achávamos que se calhar era o último, mas no Verão tive a certeza que não. Tive que a certeza que ainda te teríamos cá.
 
Subi as escadas de pedra e lá estavas, sentado na cadeira a ver a mesma paisagem de sempre, desde que os joelhos deixaram de te permitir ir para onde querias. Perguntei-te pela tia. Queria dizer-lhe que afinal íamos lá almoçar. Disseste-me que ainda agora a tinhas visto. "Se calhar foi às galinhas". Não a encontrei e pedi-te para dizeres que pusesse mais dois pratos na mesa.
 
Quando voltei, confirmei se tinhas dado o recado. Claro que sim. A tua cabeça esteve sempre melhor do que a minha. Até ao fim.
 
Podem dizer-me que viveste muito mais do que é normal, que é a vida, que agora estás em paz e que tive sorte em poder ter-te cá durante tanto tempo, em teres ficado para conhecer o meu filho ou para estares ao meu lado no dia do meu casamento. Mas nada disso serve para me tirar esta dor.
 
Serás sempre o meu maior exemplo de integridade, honestidade, de força e resiliência. Um homem lindo. O meu herói.

 Nos últimos anos, vivia com medo deste momento. Do dia em que fosses embora para fazer a tal "viagem" de que tanto falavas, sempre que te sentias menos bem. Desconfiavas dos anos ímpares, do "pernão" como lhe chamavas. Afinal foste embora a 18 de outubro de 2014. Um ano par, num dia e num mês par. Trocaram-te as voltas. Talvez fosse mais fácil se te apanhassem desprevenido.
 
Quando percebi que era a sério, fui despedir-me de ti. Pela primeira vez, vi-te em sofrimento. Agarrei-me ao teu peito frágil e seco, encostei os lábios na tua cabeça e ficamos ali. Cheiravas tão bem. Acho que consegui que não percebesses a minha angústia. Queria que aquilo não parecesse uma despedida, embora os dois soubéssemos que era. Desta vez, era.

Pedi-te para fazeres um esforço para comer, que só assim irias recuperar. Disseste-me que já estavas a fazer o teu caminho, que já não tinha retorno. E eu fingi. Fingi que não acreditava naquilo. Fingi que tudo ia ficar bem e que nos íamos voltar a ver.
 
Arranjei assuntos para desanuviar. Para ajudar no fingimento. Pedi para te trocarem a televisão do quarto. A da sala tem um ecrã maior. Entre os gemidos, disseste-me que naquela o Fernando Mendes já não cabia. E eu admirei-me.... como é que, apesar de tudo, ainda conseguias brincar.
 
Quando saí, perguntaste-me  porque é que já ia embora se no dia seguinte era domingo. Disse-te que tinha de fazer os 400 quilómetros que nos separavam, sem deixar de me surpreender como é que, há tantos dias numa cama, ainda tinhas noção dos dias da semana. A culpa é da lucidez que nunca te abandonou. Que sempre nos orgulhou mas que agora, neste estado, só avolumava a minha angústia. Preferia que não soubesses. Preferia que não sentisses.

Nunca quiseste dar trabalho, apesar de toda a vida te teres dedicado a ele. A prova é que só deixaste de conduzir o teu tractor aos 99 anos, quando já não podias mais. Vivias angustiado com o incómodo que achavas que davas a quem tão bem tratava de ti.

Vivo a três horas e meia de distância e soube que foste embora às 8h30 deste sábado. Não tive de faltar ao emprego. Não falhei aquela consulta importante que tinha marcada há meses para dia 18 de outubro, às 11h00. Quase parece que escolheste  o dia e a hora para não mexer com as minhas rotinas e "obrigações". Talvez não quisesses "dar-me trabalho".
 
Partiste aos 101 anos. Não sei para onde, nem com quem estás. Disseram-me que levaste contigo a camisola interior que te dei no Natal e deste-me um sinal ao qual me agarro com todas as forças para acreditar que ainda existes. Que isto não acabou aqui.  
 
Desta vez estavas certo. Chegou mesmo a hora de fazeres o teu caminho.  E eu fico aqui, perdida, desorientada, sem saber onde vou buscar forças para seguir com o meu.
 

14 comentários:

  1. Nestas alturas nunca consigo dizer nada :( ficam-me aqui as palavras presas na garganta, o coração aperta e faz-me doer o peito! :(
    Só te consigo desejar forças! Pensar nas coisas boas!

    Um beijinho apertado

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  2. Muito, muito bonito. Fica o sentimento de perda mas muito mais forte é o sentimento de todos os momentos que viveram e de tanto o que aprenderam um com o outro.
    Não partem, vivem sempre no nosso coração. Força

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  3. Nobre sentimento...Caco numa altura em que o mundo encosta os idosos a um canto este teu post merecia ser lido por todos...acredito na vida eterna e por isso tenho a certeza que não acaba tudo aqui na Terra e que lá no céu o teu avô continuará a olhar e a interceder por ti...com muita força...

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  4. Os meus sentimentos.
    A dor passa, mas a saudade cresce...

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  5. oh caco, que texto comovente... que Amor tão Grande! e que saudade gigante, estou certa! um beijo do tamanho do mundo (deste e do outro, onde as nossas pessoas estão a olhar por nós, tenho a certeza!)

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  6. Dos dias mais tristes das nossas vidas...

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  7. Um beijinho muito, muito grande.
    Força!

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Deita cá para fora!