quinta-feira, 12 de julho de 2018

Este é o meu Pai.


Este é o meu Pai. O meu maior orgulho. O Homem com as Mãos mais Bonitas do Mundo. 

O meu pai morreu-me e não consigo escrever uma linha de jeito desde o dia que soube o que iria acontecer. "O pior cenário será um mês, semanas... e o melhor, um ano...(pausa)... dois...", disse o senhor da bata branca, enquanto esticava os ombros até ao limite do possível.

Foram 383 dias.

Ainda não consigo escrever uma linha de jeito, mas o orgulho que tenho nele continua a crescer desmesuradamente... ali, taco a taco com a linha da saudade. Não sei quem vai ganhar, mas isso agora não importa. Enquanto isso, é urgente descobrir o que realmente importa.

O mesmo orgulho com que o levei para a residência, onde terminou os dias, e o conduzi - ainda que desajeitadamente - na cadeira de rodas, pelos novos corredores que vieram a ser a sua última casa. O mesmo orgulho com que saímos, pela primeira vez, do elevador e queria que toda a gente o conhecesse - mesmo com menos 20 quilos, cabelo raro, e os ossos a rebentarem-lhe a pele - , como se alguém ainda pudesse fazer algo por ele, ou como se isso me desse garantias de que teria mais atenção e carinho.

- "Dona Emília, dona Emília!! Venha cá! Este é que é o meu Pai!", gritei.

Ela aproximou-se, sorriu e cumprimentou-o. Fingimos as duas não reparar nas lágrimas que lhe corriam.

(...)

- "Sabe, as mãos do Homem ainda não chegam a todo o lado". 

Este eufemismo a latejar na minha cabeça. Eternamente. Foi a forma que o médico encontrou de lhe ditar a sentença. 

Precisamente ao Homem com as Mãos mais Bonitas do Mundo.

20 comentários:

  1. Que texto, amiga, que palavras...
    Deixaste-me sem elas...

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  2. Que pai tão lindo o teu. Entendo essas palavras na saudade que tenho da minha Avó. Não sei se escrevi alguma coisa de jeito desde que ela partiu, mas sei que nunca mais, nada do que vivi, foi do mesmo jeito... a saudade é dura. Força querida

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  3. Caco, não há grandes palavras a dizer nestas situações. A minha mãe morreu-me há quase 6 anos, tinha o meu filho acabado de fazer 3 meses e eu ainda estava a descobrir o que era ser mãe. Continua a morrer-me todos os dias.
    Um beijinho nesse teu coração.
    Raquel

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    1. Obrigada, Raquel. Força também para ti. Beijinhos

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  4. Como te percebo...o meu pai tambem era o meu orgulho e,apesar daquela maldita doença o ter levado de mim há 8 anos, continua a ser o meu orgulho e o meu pilar...juntamente com o meu irmão que também foi levado pelo cancro...um beijinho muito grande

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    1. Força, Olívia. Nem imagino o que seja passar por este tormento duas vezes... Beijinhos e obrigada por me leres.

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  5. Querida Caco, a minha mãe também me morreu há quase 3 anos, faltam uns meses para a data que me deixa nervosa. Confesso-lhe que só melhorei à pouquíssimos meses. Foi muito duro, estava grávida do meu Manuel ...
    Dói-lhe muito é normal mas daqui por uns tempos vai ficar uma dorzinha mais fininha e mais suportável, vai ver.
    Um beijinho e força

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    1. Obrigada pelas tuas palavras, Maggie. Beijinhos

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  6. A saudade é um sentimento que vai crescendo. O tempo passa e a saudade aumenta. Mas também muda; deixa de ser triste e passa a ser nostálgica. Não há forma miracolosa de lidar com a perda de alguém muito próximo, mas devemos recordar e guardar todos os momentos que partilhamos com quem partiu. Bj e muita força

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  7. Como queria estar aí para te dar um forte abraço!
    Um dia de cada vez, sempre ouvimos dizer
    De facto, a jornada é longa e não sei se termina
    Um beijo da tua Marçuca

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    1. Oh.. Marçuca, minha querida! Foste das primeiras amigas a quem me lembro de ter perdido a mãe. Lembro-me dela como se fosse hoje e até da voz e da gargalhada parecida com a tua... Beijinhos grandes, amiga.

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  8. Como alguém disse, há algumas situações em que nada do que possamos dizer servirá de consolo... ainda assim, deixa-me dizer-te que o teu pai continua a ser uma luzinha no teu coração, a olhar por ti :)

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  9. Um grande beijinho Caco! Muita força.

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  10. Não eram só as mãos, era um homem muito bonito! Bem sabemos que faz parte da vida, mas a mortalidade devia ser proibida.

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    1. Obrigada, querida Vespinha. E sim, tens toda a razão. Devia ser proibida. Beijinhos

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Deita cá para fora!