Passei grande parte da infância a brincar num pátio. Era um pátio grande onde cabiam cinco carros e ainda dava para jogar à macaca, saltar ao elástico e brincar aos polícias e ladrões. Tudo ao mesmo tempo.
Naquela altura, o mundo dividia-se em dois grupos: nós, as crianças, e eles, os adultos. A pressa para crescer era muita. "E quando passar o verão, já vou para o ciclo", "e quando vier o próximo inverno já faço dez anos", "e no Natal já vou pedir umas botas de cano alto como as da Mónica do 5º B".
Eu era do grupo do Pedro de cabelo preto, da Raquel irmã do Paulo, da Cristina que a mãe trabalhava na cantina, do Zé das sardas e do Paulo que tinha em casa um quadro do menino a chorar e que a mãe usava aqueles óculos com lentes garrafais que nunca nos deixavam ter a certeza se era bem para nós que estava a olhar.
Eles, os adultos, eram a D. Fátima, a mãe da Ângela, a D. Mena que falava alto, a D. Constança que morava no apartamento em frente ao nosso e, nunca soube bem porquê, não falava com a minha mãe, e a D. Paula que estava sempre à janela com o rádio ligado. Era um prédio de mulheres, achava eu. Pelo menos, é delas que me lembro.
E no meu mundo eu pensava que quando pertencesse aos deles, o dos adultos, o meu nome não ficava bem antecedido de Dona. E dizia em voz alta só para ver a sonoridade. Repetia outra vez e fingia que aquelas palavras saíam da boca de outra pessoa. Se calhar, para ganhar distanciamento. E de todas as vezes achava que o meu nome nunca ficaria bem com a Dona atrás. Se calhar, não fui feita para ser adulta.
Hoje também tenho um pátio. Vou lá estender roupa e aguardo que o condomínio tenha dinheiro para fazermos as obras necessárias por causa das infiltrações. É que o pátio é também o tecto da garagem e por isso, o usufruto é meu, mas se houver merda, pagam todos. Tudo o que se quer, portanto.
Neste pátio não há lugar para carros, mas dá para desenhar a macaca com giz ou até saltar ao elástico. A única chatice é que agora já estou no outro grupo: o dos adultos. Daqui, o pátio antigo já me parece pequeno, na despensa já tenho algumas botas de cano alto e também já não tenho pressa que o tempo passe. Ainda assim, há coisas que nunca mudam e continuo a achar que o meu nome não fica bem precedido de Dona.
Às tantas, estava certa. Se calhar não fui feita para crescer.