Já aqui comentei o quanto gosto de viajar em transportes públicos e passar o tempo a observar, a ver as pessoas que entram e saem, a imaginar as suas vidas, o que fazem, com quem vivem, do que gostam, que segredos guardam com elas. Da minha vida sei eu, mas há dois momentos por dia em que também me perco a imaginar a dos outros.
Cena 1
Cerca de 30 anos, sexo masculino, cabelo bastante curto dos lados e um pouco mais comprido em cima, um brinco, óculos de massa preta, casaco preto de couro, sweatshirt com o rato Mickey, calças de ganga pretas usadas, All Star pretos. Pernas cruzadas, telemóvel numa mão enquanto a outra bailava demasiadamente alegre ao som da conversa:
Fizeste peixe? Como "qual peixe"?!? Os bifes de atum que deixei a descongelar na bancada...Puseste a roupa a lavar? E detergente? Puseste? Viste se o meu irmão já tinha posto? Às vezes ele põe o detergente lá no recipiente, mas não liga a máquina... Olha que está a acabar... o próximo são vocês a comprar... e papel higiénico? Viste se havia? Acho que também está no fim.. Agora vou para o aeroporto... a ver se a TAP não nos lixa desta vez... Olha, espera... estás na net? Vai lá ver no site da ANA a ver se já chegou... Então não sabes que no site da ANA dá para ver? Metes ANA ponto pt e depois metes o aeroporto de chegada e partida... põe Estocolomo... espera... agora não oiço nada... quê? tou no metro... então pronto... está a horas, ainda vou a tempo. Ãããhhh? Já chegou? Está bem, mas o tempo de aterrar e ir buscar as malas, já eu lá cheguei.. O quê? Não, não oiço nada... Pode estar a aterrar ou já aterrou? Pronto, está bem, não oiço... Olha, não contes comigo para jantar".
Cena 2
Sentada no autocarro, tenho à minha frente um homem a mandar sms´s. Só lhe vejo a cabeça, o rosto de perfil e o ecrã do telemóvel. Percebo que está a trocar mensagens enquanto sorri. Aquele sorriso meio aparvalhado de quem está apaixonado ou a fazer alguma. Não resisto e tento ler:
Também tenho saudades. Quando o vento chegar até ti sou eu que te levo um beijo para te aconchegar.
A mensagem seguiu para uma tal de Ana Baptista. Segundos depois, vejo-o deslizar os dedos pela lista de contactos. Entre a Ana, a Amélia, o Augusto e o Álvaro, estava também alguém chamado Amor.